Quarta-feira,
27 de outubro de 1999

Observadores montam antenas e ouvem estrelas 

Superando a poluição ambiental e luminosa, eles investigam o cosmos 


 
MAURÍCIO MORAES 


Mesmo com toda a poluição luminosa presente no céu da capital, o astrônomo amador Cláudio Brasil aproveita o espaço de sua residência, no Butantã, para observar os planetas. Mais brilhantes do que vários corpos celestes, esses escapam da ação das luzes paulistanas. Segundo Brasil, a iluminação da capital prejudica principalmente aqueles que desejam estudar objetos de menor magnitude, como cometas, galáxias e nebulosas. 
Dois telescópios auxiliam o trabalho do astrônomo, que dedica a maior parte do tempo ao estudo dos chamados planetas inferiores. Localizados entre o Sol e a Terra, Mercúrio e Vênus tornaram-se, há 11 anos, sua principal área de pesquisa. A especialização veio a partir do momento em que Brasil passou a integrar a Rede de Astronomia Observacional (REA). 
Atualmente, ele vem tentando encontrar explicações para o efeito Schröter. "Mercúrio e Vênus apresentam fases, como a Lua", explica. "Teoricamente, daria para prever, por exemplo, a data em que um deles estaria parcialmente iluminado." Na prática, contudo, os cálculos feitos pelos cientistas não correspondem à realidade. As fases sempre ocorrem dias antes ou dias depois do que havia sido previsto. 
A "luz cinzenta" também está entre os eventos que recebem atenção do observador. Segundo ele, o fenômeno ocorre sempre que a Lua está em fase crescente ou minguante. A parte que não recebe luz não fica totalmente negra, mas ainda pode ser vista com iluminação bem fraca. "No caso da Lua, a reflexão da luz solar na Terra ocasiona o fenônemo." Mas em Vênus, que não tem satélites, ocorre o mesmo. 
Marcas de superfície - Brasil destaca que, no momento, tem dado mais ênfase ao efeito Schröter. "Estamos abordando o assunto porque temos obtido mais dados para poder explicá-lo", salienta. Ele coordena a área de planetas inferiores da REA e faz parte de outra organização, a Planetary Society. Ainda assim, sobra tempo para observações mais convencionais, como o estudo de marcas de superfície. 
Além de pesquisar o espaço, Brasil também procura ouvi-lo. O astrônomo é coordenador para o Brasil da Seti League, entidade que reúne 1.100 membros em todo o globo. A organização tem por objetivo instalar estações de rastreamento ao redor do mundo, para tentar captar sinais de vida inteligente fora da Terra. "Sempre fiquei fascinado com a possibilidade de haver vida em outros planetas", diz Brasil. 
Associações como a Seti League surgiram a partir do projeto Seti da Nasa, a agência espacial norte-americana. "Ele foi lançado em 1992 e, um ano depois, acabou cancelado pelo Congresso dos Estados Unidos", lembra. A iniciativa procurava detectar vida inteligente em outros planetas. "Houve indignação muito grande da comunidade científica com o fim do programa", explica. Grupos passaram então a se organizar para essa busca. 
Interesse comum - A Seti League está entre as organizações surgidas nesse período. Formada por estudantes, físicos, astrônomos amadores, operadores de rádio e todos os tipos de interessados no tema, a entidade desenvolve equipamentos de baixo custo para facilitar a instalação das estações. Receptores que chegam a custar cerca de US$ 2 mil têm similares feitos pela liga, que custam aproximadamente US$ 400,00. 
Uma antena parabólica de 3 a 5 metros de diâmetro, adaptada para receber os sinais do espaço, um receptor ligado a um receiver e um computador doméstico formam o conjunto necessário para que se monte uma estação. "Tudo tem de seguir os padrões da Liga", esclarece o coordenador nacional. "Enquanto não for testada, a estação não é reconhecida." Brasil ainda precisa adquirir dois equipamentos para começar a monitorar os céus. 
Os sons do espaço são captados pela antena, que os transfere para um programa de computador. O software transforma os dados em sinais gráficos. "Se não for uma linha contínua e perpendicular, o sinal pode ter origem extraterrestre", afirma Brasil. 
Primeiramente, verifica-se o indício, para avaliar se não surgiu de algum objeto celeste. "Vemos quais os satélites que passaram no local naquela hora", exemplifica o astrônomo. Descartada a hipótese do satélite, examinam-se objetos celestes que poderiam ser fonte da emissão. 
Protocolos - Se não houver explicação, o sinal pode vir de outro planeta e comunica-se a descoberta para a Seti League. "Outras estações têm de confirmá-lo", acrescenta Brasil. Caso consigam captá-lo em outras partes do mundo, há grandes chances de vir de outra civilização. "Mas não podemos sair divulgando isso para a imprensa", destaca."Tudo fica sob responsabilidade da direção da Liga, que toma uma série de atitudes e segue vários protocolos internacionais." 
Na Internet: REA - www.geocities.com/CapeCanaveral/9355; Planetas inferiores - http://members.xoom.com/astroseti/index.html; Seti League - http://www.setileague.org; Planetary Society - http://www.planetary.org. 

 
 
 
 



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