| Observadores
montam antenas e ouvem estrelas
Superando a poluição ambiental e luminosa, eles investigam
o cosmos
MAURÍCIO MORAES
Mesmo com toda a poluição luminosa presente no céu
da capital, o astrônomo amador Cláudio Brasil aproveita o
espaço de sua residência, no Butantã, para observar
os planetas. Mais brilhantes do que vários corpos celestes, esses
escapam da ação das luzes paulistanas. Segundo Brasil, a
iluminação da capital prejudica principalmente aqueles que
desejam estudar objetos de menor magnitude, como cometas, galáxias
e nebulosas.
Dois telescópios auxiliam o trabalho do astrônomo, que dedica
a maior parte do tempo ao estudo dos chamados planetas inferiores. Localizados
entre o Sol e a Terra, Mercúrio e Vênus tornaram-se, há
11 anos, sua principal área de pesquisa. A especialização
veio a partir do momento em que Brasil passou a integrar a Rede de Astronomia
Observacional (REA).
Atualmente, ele vem tentando encontrar explicações para o
efeito Schröter. "Mercúrio e Vênus apresentam fases,
como a Lua", explica. "Teoricamente, daria para prever, por exemplo, a
data em que um deles estaria parcialmente iluminado." Na prática,
contudo, os cálculos feitos pelos cientistas não correspondem
à realidade. As fases sempre ocorrem dias antes ou dias depois do
que havia sido previsto.
A "luz cinzenta" também está entre os eventos que recebem
atenção do observador. Segundo ele, o fenômeno ocorre
sempre que a Lua está em fase crescente ou minguante. A parte que
não recebe luz não fica totalmente negra, mas ainda pode
ser vista com iluminação bem fraca. "No caso da Lua, a reflexão
da luz solar na Terra ocasiona o fenônemo." Mas em Vênus, que
não tem satélites, ocorre o mesmo.
Marcas de superfície - Brasil destaca que, no momento, tem
dado mais ênfase ao efeito Schröter. "Estamos abordando o assunto
porque temos obtido mais dados para poder explicá-lo", salienta.
Ele coordena a área de planetas inferiores da REA e faz parte de
outra organização, a Planetary Society. Ainda assim, sobra
tempo para observações mais convencionais, como o estudo
de marcas de superfície.
Além de pesquisar o espaço, Brasil também procura
ouvi-lo. O astrônomo é coordenador para o Brasil da Seti League,
entidade que reúne 1.100 membros em todo o globo. A organização
tem por objetivo instalar estações de rastreamento ao redor
do mundo, para tentar captar sinais de vida inteligente fora da Terra.
"Sempre fiquei fascinado com a possibilidade de haver vida em outros planetas",
diz Brasil.
Associações como a Seti League surgiram a partir do projeto
Seti da Nasa, a agência espacial norte-americana. "Ele foi lançado
em 1992 e, um ano depois, acabou cancelado pelo Congresso dos Estados Unidos",
lembra. A iniciativa procurava detectar vida inteligente em outros planetas.
"Houve indignação muito grande da comunidade científica
com o fim do programa", explica. Grupos passaram então a se organizar
para essa busca.
Interesse comum - A Seti League está entre as organizações
surgidas nesse período. Formada por estudantes, físicos,
astrônomos amadores, operadores de rádio e todos os tipos
de interessados no tema, a entidade desenvolve equipamentos de baixo custo
para facilitar a instalação das estações. Receptores
que chegam a custar cerca de US$ 2 mil têm similares feitos pela
liga, que custam aproximadamente US$ 400,00.
Uma antena parabólica de 3 a 5 metros de diâmetro, adaptada
para receber os sinais do espaço, um receptor ligado a um receiver
e um computador doméstico formam o conjunto necessário para
que se monte uma estação. "Tudo tem de seguir os padrões
da Liga", esclarece o coordenador nacional. "Enquanto não for testada,
a estação não é reconhecida." Brasil ainda
precisa adquirir dois equipamentos para começar a monitorar os céus.
Os sons do espaço são captados pela antena, que os transfere
para um programa de computador. O software transforma os dados em sinais
gráficos. "Se não for uma linha contínua e perpendicular,
o sinal pode ter origem extraterrestre", afirma Brasil.
Primeiramente, verifica-se o indício, para avaliar se não
surgiu de algum objeto celeste. "Vemos quais os satélites que passaram
no local naquela hora", exemplifica o astrônomo. Descartada a hipótese
do satélite, examinam-se objetos celestes que poderiam ser fonte
da emissão.
Protocolos - Se não houver explicação, o sinal
pode vir de outro planeta e comunica-se a descoberta para a Seti League.
"Outras estações têm de confirmá-lo", acrescenta
Brasil. Caso consigam captá-lo em outras partes do mundo, há
grandes chances de vir de outra civilização. "Mas não
podemos sair divulgando isso para a imprensa", destaca."Tudo fica sob responsabilidade
da direção da Liga, que toma uma série de atitudes
e segue vários protocolos internacionais."
Na Internet: REA - www.geocities.com/CapeCanaveral/9355; Planetas inferiores
- http://members.xoom.com/astroseti/index.html; Seti League - http://www.setileague.org;
Planetary Society - http://www.planetary.org.
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