CIÊNCIA E SAÚDE 
Internautas em busca de ETs 
Físico brasileiro está construindo em sua casa a primeira estação do País para rastrear sinais de extraterrestres 

Valquíria Rey 
Da equipe do Correio Com El Pais, de Madri 


Claudio Brasil
O físico Claudio é um dos dois brasileiros que fazem parte do grupo que busca sinais de extraterrestres 

São Paulo — Um milhão de pessoas de 200 países estão empenhadas em uma descoberta científica considerada obra de ficção científica até alguns anos — o contato com vida inteligente fora da Terra. A colaboração mundial é coordenada por uma equipe de radioastrônomos da Universidade de Berkeley (Estados Unidos).

  Esse esforço integra o projeto SETI — sigla em inglês para Busca de Inteligência Extraterrestre — mantido há 40 anos por dezenas de grupos e equipes de vários países. Liderado pelos cientistas de Berkeley e abandonado em 1993 pela estadunidense Nasa, a única agência espacial a apoiá-lo, o programa fez, em maio, um pedido de ajuda internacional. E recebeu uma resposta acima das expectativas. 

  No que consiste essa colaboração multifacetada? Simplesmente, em emprestar memória informática. Os colaboradores instalam um pequeno programa em seus computadores — que processam então dados repassados pelo grupo de Berkeley por meio da Internet. 

  Entre os apaixonados rastreadores de sinais de vida inteligente extraterrestre está o físico paulista Claudio Brasil. Fascinado por astronomia desde os 15 anos, conheceu o projeto SETI em 1981, quando ainda estava na faculdade, e assistiu à primeira palestra sobre o assunto. O interesse foi imediato. 
 
 

ESTAÇÃO

  Mais do que fazer parte da rede de milhares de internautas voluntários que acessam o SETI@home em todo o mundo, Claudio está montando uma estação de captação de sinais em sua casa, no Butantã, na zona oeste da capital paulista. Com 37 anos, ele é um dos dois representantes brasileiros da SETI League. 

  Segundo Claudio, aqueles que integram a SETI League e construíram suas estações terão condições de receber sinais sem depender da antena do radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico. Mas, para serem considerados aceitáveis, esses sinais deverão ser captados por pelo menos duas dessas estações.

  ‘‘Quero trabalhar no SETI de todas as formas possíveis’’, afirma o físico com mestrado em Tecnologia Nuclear, que há três anos é o coordenador para o Brasil dessa organização. ‘‘Com o SETI@home, todo mundo pode participar. É uma idéia interessante, mas não definitiva. Com a SETI League também tenho a oportunidade de pesquisar.’’

  A SETI League pretende construir uma rede de cinco mil antenas rastreadoras de sinais, com diâmetros variando de três a cinco metros, no prazo máximo de cinco anos. Até o momento, apenas 60 estão em operação. Com duas mil, o sistema já tem condições de funcionar. 

  A primeira estação brasileira está sendo construída na casa do físico paulistano, onde já está instalada uma antena parabólica comum de recepção de satélites, de três metros. Batizada de Estação Rastreadora Giordano Bruno — em homenagem ao monge dominicano que morreu na fogueira em Roma, em 1600, por defender a existência de vida em outros planetas —, deverá ficar pronta em março do próximo ano.

  Claudio ainda não ouviu nenhum sinal vindo do cosmo emitido por um ET. Mas não desanima. ‘‘Tenho certeza que é questão de tempo para recebermos sinais de existência de vida inteligente fora da Terra. Precisamos pesquisar mais e esperar.’’

  No pequeno escritório de 2,5 metros quadrados, em meio a centenas de livros, Claudio pretende finalizar a sala de controle da estação. Ali, já estão instalados dois computadores. Num deles, acessa o SETI@home, o canal de comunicação caçador de ETs. O outro, aguarda pela construção do sistema SETI League. É nesse lugar que ele prepara um livro em português sobre as buscas do SETI. Também finaliza a quarta edição de um jornal sobre o assunto. Em duas semanas, deverá estar à disposição na Internet.

  O físico está mais preocupado com o desenvolvimento do trabalho da SETI League, mas reconhece que o SETI@home tem feito relativo sucesso entre os internautas brasileiros. Muitos estão reunidos numa entidade chamada Brasil, depois de participar de grupos de trabalho criados pelo SETI@home para verificar quem consegue processar o maior número de dados. 

  Segundo a revista Ufo, publicação dedicada ao estudo dos extraterrestres, o Brasil ocupa a 19ª colocação no ranking internacional de grupos do projeto. Enquanto nação participante, o Brasil está em 24º lugar. (Colaborou Andrei Soares)

Como participar da caçada

  • O internauta que quiser participar da busca por sinais extraterrestres deve acessar a página oficial do SETI@home (seti@home.sst.berkeley.edu), de onde poderá importar (download) o programa necessário para seu computador. Uma vez instalado o programa, a organização SETI@home enviará uma unidade de dados para ser analisada pelo computador do afiliado. Trata-se de um trabalho de 15 horas realizado nos momentos em que o computador está aberto, mas ocioso. Não é preciso estar ligado à Internet nesses momentos. 
  • Uma vez concluída a análise, é preciso remeter o resultado. Dependendo da escolha do próprio afiliado, o programa — na forma de um protetor de telas — se liga à Internet automaticamente ou mediante a ordem do usuário. São necessários uns cinco minutos para enviar a resposta, período durante o qual o SETI aproveita para retransmitir outra ‘‘unidade de trabalho’’ para reiniciar o processo. Se a análise não chegar num determinado prazo, os técnicos da Universidade de Berkeley consideram o afiliado como afastado do projeto e envia seus dados a outro. 

  • Estas são outras páginas que fornecem informações sobre o SETI@home. 

    Página de Claudio Brasil:

    http://members.xoom.com/astroseti/index.html

    Página de Mauro Cavalcanti:

    http://www.angelfire.com/mi/seti

    Página da lista de discussão sobre o projeto SETI com enfoque no programa SETI@home:

    http://setibr.listbot.com/





    Fonte: Correio Braziliense de 01/09/1999
    Reproduzido sob permissão
     

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